Modelos possíveis

Sabe aquela nova descoberta que você faz na internet e instantaneamente se apaixona? Uma série, um blog, um perfil bonito no Instagram… E de repente tudo que você faz ou fala envolve aquilo, e você quer apresentar pra todos os amigos e parentes o quão legal a sua descoberta é. Dia desses tive uma paixão repentina dessas, e o mais inusitado é que foi com um vlog, um formato que eu sempre odiei e nunca consegui consumir. Sim, o vlog em questão é o Jout Jout Prazer. E sim, fui abrir o link do canal para colar aqui e acabei vendo um vídeo e rindo alto. Acontece.

Gosto do fato de ela falar daquelas sensações que as mulheres têm ou de situações que só as mulheres passam, mas que ninguém fala. Tipo o assunto do vídeo acima. Quanta mulher sente a tal afliceta e não fala porque é feio, porque é vulgar, porque é isso e aquilo? A Jout Jout quebra os tabus de forma leve e divertida, faz com que a gente não se sinta sozinha nesse mundo porque as nossas esquisitices não são só nossas, são de todas as mulheres… Mas nossa, se são de todas as mulheres por que ninguém fala sobre isso? Pois é, né? A gente devia falar mais sobre isso.

Por uma coincidência, esses dias comprei o livro da Lena Dunham (Não Sou Uma Dessas) e durante o livro pensei isso diversas vezes também. Diferente da Jout Jout, a Lena fala de uma forma mais séria e filosófica, aborda a sexualidade de forma mais aprofundada, mas também toca naqueles temas que a gente acaba guardando pra nós mesmas. E elas, destemidas, contam histórias pessoais, abrem a intimidade e fazem com que a gente se sinta um pouquinho mais normal.

Percebi, então, que aos poucos está chegando uma tendência que valoriza essas mulheres reais, que gravam vídeo sem maquiagem, que aparecem na TV nuas mesmo sem ter o corpo de modelo, que falam sobre sexualidade de forma honesta e que são modelos possíveis. Consigo olhar pra elas e sentir que estou admirando pessoas com falhas, que trabalharam muito pra conseguir reconhecimento, que fazem eu sentir que posso chegar lá um dia. São inspirações de criatividade, espontaneidade, beleza própria e sucesso profissional.

Espero que a próxima geração de meninas cresça com mais modelos possíveis, que façam elas se sentirem melhores consigo mesmas, e não piores. E que elas se sintam livre para falar de todas as particularidades do sexo feminino sem que isso seja tabu.

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Celebrate the ones you love

Pensei muito antes de tomar a decisão de escrever sobre esse assunto. Fiquei com medo de expor ou magoar alguém, e também de mostrar muito a minha vida pessoal, mas decidi que às vezes a gente precisa ser um pouco narcisista e escrever sobre si mesma. Pois bem, aqui estou eu desabafando sobre estar cansada de repetir à exaustão que está tudo bem mesmo quando tem alguma coisa me cortando por dentro.

Semana passada eu me formei. Sem beca, sem colação de grau, sem meia calça fina e salto alto, sem maquiagem de salão de beleza, sem baile, sem coro de “valeu a pena, ê ê” com outros formandos. Acordei mais cedo que o normal, coloquei um vestido preto mais arrumadinho, tomei café com a minha irmã e fomos até a faculdade. Entrei sozinha na secretaria geral, onde algumas pessoas já estavam trabalhando, e fui levada à uma mesa de escritório simples para assinar o diploma. Em troca, recebi o certificado de conclusão de curso para provar que terminei o curso enquanto o diploma de verdade não fica pronto.

Não teve evento especial, mas nesse dia eu me senti com aquela sensação boa de dever cumprido, orgulhosa de mim mesma, grata por todo o esforço da minha mãe que tornou tudo isso possível. Quem me conhece sabe que eu adoro comemorar tudo: fiz quatro festas de 15 anos (todas simples, nenhuma de debutante), participei de uns dois ou três trotes para comemorar as duas faculdades em que fui aprovada, adoro Natal, saí beber depois de quase todos os protocolos do TCC, tudo isso ao lado das pessoas que eu amo. Por isso, saí da faculdade e comprei alguns pacotes de pão de queijo para comemorar essa conquista com o pessoal do trabalho.

Decidi também que, mesmo sem mãe e pai, eu merecia uma comemoração com a família, alguns tios e tias, primos e primas que moram em Curitiba. Escolhi com cuidado um restaurante que agradasse todos, liguei pra convidar e, no dia do jantar, fiquei empolgada por poder ver minha família a aproveitar um momento tão importante pra mim, já que não tive nenhuma outra cerimônia. Saí comprar um vestido novo, tirei um cochilo antes do jantar e, quando eu acordei, me falaram que ninguém iria. Cada um com uma justificativa – umas plausíveis, outras não – mas o fato é que ninguém ia. Falei que estava tudo bem, fui numa hamburgueria com a minha irmã, meu namorado e meu cunhado e estourei um espumante em casa para brindar.

Mesmo feliz com as pessoas que comemoraram comigo, eu não consegui não me sentir um lixo, não me sentir um pouco sozinha, não lembrar de todas as vezes em que minha mãe estava ao meu lado celebrando minhas pequenas conquistas – qualquer coisa, para ela, era motivo para ficar feliz e fazer festa. Agora a única coisa que eu sinto é que eu não tenho mais de cinco pessoas no mundo com quem eu posso contar, sendo que nem metade delas é família de sangue. Por isso eu valorizo muito as amizades maravilhosas que tenho.

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Não quero que sintam pena, não quero pedidos de desculpas, quero apenas que as pessoas pensem um pouco mais na importância da presença delas. Para você pode ser só mais um aniversário, um jantar bobo, um evento que vale menos a pena do que ficar em casa assistindo Netflix. Mas, para outras pessoas, a sua presença pode significar muito. Não deixe de lado a oportunidade de fazer alguém feliz.

O amor romântico estragou o amor

Pense sobre a sua história de amor favorita da ficção. Pode ser filme, seriado ou livro, de Cinderela a Moulin Rouge, de Engel e Joe a Harry e Sally. A noção que nós temos do amor romântico, da amizade, de família e de outros valores são passados para nós, em grande parte, através dos produtos culturais. Portanto, é sensato concluir que o que a gente imagina como amor verdadeiro é o que a televisão, o cinema ou a literatura nos mostram. E, em toda história de amor, há um grande obstáculo a ser superado, uma pessoa a ser conquistada, alguma dificuldade que impeça o casal de ficar junto. É tudo muito complicado, sofrido, como se o amor romântico não viesse assim, de bandeja, e fosse preciso lutar por ele.

No entanto, diferente do que essas histórias me mostram, as melhores histórias que eu vivi não tiveram esses elementos. Confesso que alguns casos foram assim, cheios de drama digno de seriado adolescente, e servem até hoje para uma conversa tragicômica numa mesa de bar. Só que todas essas histórias não passaram de casos pontuais, sem evoluir para algo concreto, para o final feliz. Mesmo assim, insisti em alguns achando que iria mudar o cara, que apenas o timing era errado, que a gente deveria ficar juntos… Claro que todo esse drama não valeu a pena no fim das contas.

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“Sempre sozinha”, afirma Tom

Já nos relacionamentos sólidos que eu tive, que foram só dois, tudo aconteceu de forma tão leve e simples que parecia mentira, como se a qualquer momento fosse acontecer alguma coisa para me dizer que era bom demais pra ser verdade. Das duas vezes comecei a namorar em menos de um mês, sendo que o meu namoro atual começou depois de dois dias que a gente se conheceu, e já se passaram dois anos desde então. Sem drama, sem perseguição, sem jogos. Ele gostou de mim, eu gostei dele e a gente está criando uma vida ótima juntos, com direito a maratonas de Netflix, jantares em casa, viagens e outras coisas que fazem minha rotina ser maravilhosa. E eu nem precisei lutar por isso, veja só você. Ele simplesmente apareceu.

O que eu quero dizer é que a frase feita “tudo que vem fácil vai fácil” é uma idiotice quando se trata de relacionamentos. Alimentar essa ideia de que só é possível achar o amor em meio a dificuldades faz com que a gente insista em pessoas que não merecem, que a gente perca tempo com gente que não pode ou não quer nos fazer felizes. O amor não tem que ser uma grande batalha, você não precisa correr atrás para merecer afeto, mas sim esperar por alguém que faça tudo fluir naturalmente. Amor bom é quando a gente não precisa esperar para responder a mensagem, não precisa provocar ciúme ou se fazer de difícil.

Desde então, (500) Dias com Ela se tornou minha história de amor favorita, exatamente por mostrar que a nossa noção de amor romântico é, na verdade, uma vontade danada de viver na sofrência. O amor de verdade não dói, é fácil, é sussinho. E é muito bom.

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Isto nao é um convite

Hoje eu estava rolando o feed do Facebook quando uma postagem da VICE me saltou aos olhos.  O texto “Por que não faço boquete” fala sobre a decisão de uma mulher de parar de fazer sexo oral porque ela decidiu que não gostava de fazer e que não deveria fazer só para agradar outras pessoas.  Como eu ainda não me eduquei a não ler os comentários (sempre falo que vou parar, sempre me pego lendo e me indignando ou comentando junto), comecei a ler que muitos homens estavam achando um absurdo o fato de ela parar de fazer boquete. Eu, que não controlo minha vontade de tagarelar, escrevi que os homens reclamam, mas a maioria não faz sexo oral na parceira e, quando faz, não sabe muito o que está fazendo por lá.

Algumas pessoas concordaram comigo, outras não, mas poucos minutos depois apareceu uma enxurrada de pedidos de amizade de homens no meu Facebook que eu nunca vi na vida. Lembrei-me, então, que é porque eu tinha comentado no tal post. Existe uma parcela de homens que acredita que o fato de uma mulher estar falando abertamente sobre sexo significa que ela está convidando qualquer um para copular. Coisas normais que os homens falam na mesa do bar, como “eu toco punheta todo dia”, “eu gosto de 69” ou “prefiro fazer de luz apagada” se transformam em pedidos de trepada quando sai da boca de uma mulher. Enquanto isso, os homens falam livremente sobre sexo com as amigas sem que elas queiram pular no pescoço deles imediatamente.

Como eu ainda tenho esperança no mundo (tolinha…), comentei novamente, falando que o fato de eu estar falando sobre o assunto não significa que eu esteja lá procurando alguém – tô namorando e minha vida está muito bem resolvida, obrigada – mas poucos minutos depois eu recebi um comentário que eu tenho vergonha de reproduzir, mas que era o equivalente de uma pornografia gritada na rua. Envergonhada, deletei o primeiro comentário que eu fiz e que originou todos os outros.

Moral da história: descobri que é muito difícil falar sobre sexo sendo mulher. Sempre que eu tento acabo ouvindo o que eu não quero, acabo sendo abordada por pessoas que não respeitam a minha privacidade. Perguntei no Twitter se os homens recebem investidas quando eles falam sobre sexo, e claro que a resposta foi “não”. E eu percebi, mais uma vez, que o simples fato de ser mulher me faz passar por coisas muito chatas que homens desconhecem. Que merda.

Menos cavalheirismo, mais companheirismo

Agora que eu sou formada (can I hear an amen?) estou assistindo muitos filmes toda semana – achei que isso fosse acontecer naturalmente com os livros também, mas pelo visto a overdose de livros durante o TCC me deixou um pouco preguiçosa em 2015 – e esses dias fui surpreendida com uma animação muito bem feita e com uma lição de vida muito interessante: Festa no Céu (vai ter spoiler, então sugiro que só leia quem assistiu o filme ou não se importa em saber detalhes). Resumindo, o filme conta a história de um triângulo amoroso formado por Joaquim e Manolo, que disputam o amor de Maria. Apesar do filme ter muitas reflexões boas sobre a morte, vou focar em um aspecto em especial que me saltou aos olhos: companheirismo é muito melhor que cavalheirismo nas relações.

Joaquim representa o cavalheirismo: extremamente solícito com Maria, ele quer se casar com ela e sustentar a casa – mas sugere que, em troca, ela seja uma dona de casa que faça tudo por ele. Maria, moça muito moderninha, fica louca da vida quando ele sugere isso (a cena é tão boa que eu cheguei a postar o vídeo no meu Instagram). Além disso, mais para o final do filme, ele tenta protegê-la durante uma luta na qual ela tinha a total capacidade de participar. Manolo, por outro lado, aproveita a companhia dela para eles lutarem juntos – e está sempre por perto, ajudando, mas sem tirar o poder de escolha dela. Claro que, no fim, ela acaba escolhendo o cara que entende que ela é mais que um rostinho bonito e uma esposa em potencial.

Agora que eu escrevi parece uma coisa meio óbvia, mas talvez importante ressaltar para os moços e moças que acham um absurdo que o cavalheirismo tenha morrido. Que bom que ele morreu! Isso não precisa significar que a gentileza acabou, mas sim que um homem pode ser gentil com uma mulher da mesma forma que é gentil com outro homem – sem atitudes exageradas que dão a entender que ela não dá conta. A gente dá conta sim, moço! Não queremos mais alguém que ande na nossa frente, mas sim ao nosso lado.

Casais que conseguem entender que a relação não é uma hierarquia conseguem diminuir a pressão dos dois lados e são muito mais parceiros do que os casais tradicionais que precisam dos papéis de gênero para agirem. Por um mundo em que o companheirismo seja a regra e o cavalheirismo esteja morto e muito bem enterrado, por favor.

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Um álbum por dia: quebrando a monotonia musical

Uma das coisas que sempre me assustou é o efeito que o tempo tem em algumas pessoas. Não falo de pele, de cabelo, tampouco de corpo, mas sim da essência que torna as crianças e os adolescentes tão fascinantes: a sede de novas descobertas, a vontade de conhecer a fundo as músicas, os filmes e a cultura, o medo do tédio e da rotina. São poucos os adultos que aos 40 ou 50 anos ainda se empenham em conhecer música nova ou em viajar para ver um show, e desde sempre eu quis fazer parte dessa minoria.

Já basta eu estar me tornando o tipo de adulta que dorme durante os filmes, que sente dores no corpo ao ficar muito tempo em pé e que já não vai ao cinema tanto quanto antes. Por isso, neste ano eu me propus a ouvir ao menos um álbum novo por dia: algo relativamente fácil em tempos de Spotify e Rdio. Algumas vezes não consigo ouvir o álbum inteiro, mas pelo menos cinco ou seis músicas novas eu conheço. Como não sou nenhuma enciclopédia musical, estou buscando as dicas no livro “100 personalidades e discoteca básica – 10 discos favoritos”, do músico e diretor de programas de TV Zé Antonio Algodoal.

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O livro reúne os discos favoritos de pessoas como Kid Vinil, Chuck Hipolito, Didi Wagner, Jô Soares, Dinho Ouro Preto, Laerte, Clara Averbuck e até a Lulu Super Pop! As listas me ajudaram a, aos poucos, sair da minha zona de conforto e conhecer mais o trabalho de artistas essenciais para a música e perder o preconceito com alguns artistas, como o Velvet Underground (eu só não conhecia as músicas certas) e o Faith No More. E agora, por exemplo, eu estou escrevendo ao som de Serge Gainsbourg.

Pode não ser exatamente uma grande revolução na minha vida – mas é um passo para que eu me mantenha motivada a conhecer algo novo todos os dias. Fiquei tão empolgada com o negócio que já presenteei meu namorado com uma revista da Rolling Stone com os 500 melhores álbuns de sempre e fiz uma playlist no Spotify para compartilhar um pouco das minhas descobertas com quem quiser.


Além dessas listas que estão me inspirando muito, existem várias outras de filmes, livros e músicas para a gente fuçar e começar a conhecer obras que não conheceríamos por curiosidade própria. Parece pouco, mas ajuda a dar uma agitada na rotina.

O dia que virei gente grande

Deitada ao lado da minha irmã sonâmbula murmurando frases sem sentido, tento pegar no sono para acordar cedo no dia seguinte para trabalhar. Entre preocupações como o saldo na conta, a roupa para o clima curitibano, lembrar de marcar bar com os amigos que não vejo há tempos e o desejo de tentar jogar na loteria (vai que eu só não ganhei porque nunca jogo), percebo que agora eu sou uma pessoa adulta.

Não me tornei adulta quando tive a primeira menstruação, o primeiro dia de faculdade, o primeiro porre, a primeira transa, a primeira conta no banco ou o primeiro carimbo assinado na carteira de trabalho. Sim, cresci um pouco com cada um desses acontecimentos, mas a idade adulta chega pra ficar mesmo quando se dá conta de que é preciso declarar impostos.

A vida adulta é uma floresta desconhecida para mim na qual eu sei que há um leão em algum lugar esperando para me abocanhar. Antes era distante, agora eu já consigo ouvir o animal rugindo no meu ouvido e não faço a menor ideia de como proceder. Em que mês se declara? Precisa de contador? Que documentos que eu preciso guardar? A partir de quanto dinheiro na conta eu preciso me preocupar com isso?

Aliás, se tornar adulta em uma casa sem pai nem mãe não é lá tarefa muito fácil. Ainda mal decorei o que deve ser o preço justo de cada item de limpeza dentro do mercado e agora me encontro dentro desse grupo que precisa explicar pro governo onde e quando gastou a mesada. Pagar conta é razoavelmente fácil, trabalhar se aprende, fazer Trabalho de Conclusão de Curso é possível, mas eu sou de humanas e esse negócio de lidar com dinheiro e documento nunca deu muito certo para mim.

Assustada, peguei meu computador e vim até a cozinha, o único lugar da casa onde não tem gente dormindo e onde não há vaso sanitário, para tomar o meu Dorflex e dizer: VIREI ADULTA, mas não sei muito bem como isso funciona. Tem tutorial? Ainda pode usar tênis com estampa de stormtrooper? Se alguém souber, favor me avisar.

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