Isto nao é um convite

Hoje eu estava rolando o feed do Facebook quando uma postagem da VICE me saltou aos olhos.  O texto “Por que não faço boquete” fala sobre a decisão de uma mulher de parar de fazer sexo oral porque ela decidiu que não gostava de fazer e que não deveria fazer só para agradar outras pessoas.  Como eu ainda não me eduquei a não ler os comentários (sempre falo que vou parar, sempre me pego lendo e me indignando ou comentando junto), comecei a ler que muitos homens estavam achando um absurdo o fato de ela parar de fazer boquete. Eu, que não controlo minha vontade de tagarelar, escrevi que os homens reclamam, mas a maioria não faz sexo oral na parceira e, quando faz, não sabe muito o que está fazendo por lá.

Algumas pessoas concordaram comigo, outras não, mas poucos minutos depois apareceu uma enxurrada de pedidos de amizade de homens no meu Facebook que eu nunca vi na vida. Lembrei-me, então, que é porque eu tinha comentado no tal post. Existe uma parcela de homens que acredita que o fato de uma mulher estar falando abertamente sobre sexo significa que ela está convidando qualquer um para copular. Coisas normais que os homens falam na mesa do bar, como “eu toco punheta todo dia”, “eu gosto de 69” ou “prefiro fazer de luz apagada” se transformam em pedidos de trepada quando sai da boca de uma mulher. Enquanto isso, os homens falam livremente sobre sexo com as amigas sem que elas queiram pular no pescoço deles imediatamente.

Como eu ainda tenho esperança no mundo (tolinha…), comentei novamente, falando que o fato de eu estar falando sobre o assunto não significa que eu esteja lá procurando alguém – tô namorando e minha vida está muito bem resolvida, obrigada – mas poucos minutos depois eu recebi um comentário que eu tenho vergonha de reproduzir, mas que era o equivalente de uma pornografia gritada na rua. Envergonhada, deletei o primeiro comentário que eu fiz e que originou todos os outros.

Moral da história: descobri que é muito difícil falar sobre sexo sendo mulher. Sempre que eu tento acabo ouvindo o que eu não quero, acabo sendo abordada por pessoas que não respeitam a minha privacidade. Perguntei no Twitter se os homens recebem investidas quando eles falam sobre sexo, e claro que a resposta foi “não”. E eu percebi, mais uma vez, que o simples fato de ser mulher me faz passar por coisas muito chatas que homens desconhecem. Que merda.

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Menos cavalheirismo, mais companheirismo

Agora que eu sou formada (can I hear an amen?) estou assistindo muitos filmes toda semana – achei que isso fosse acontecer naturalmente com os livros também, mas pelo visto a overdose de livros durante o TCC me deixou um pouco preguiçosa em 2015 – e esses dias fui surpreendida com uma animação muito bem feita e com uma lição de vida muito interessante: Festa no Céu (vai ter spoiler, então sugiro que só leia quem assistiu o filme ou não se importa em saber detalhes). Resumindo, o filme conta a história de um triângulo amoroso formado por Joaquim e Manolo, que disputam o amor de Maria. Apesar do filme ter muitas reflexões boas sobre a morte, vou focar em um aspecto em especial que me saltou aos olhos: companheirismo é muito melhor que cavalheirismo nas relações.

Joaquim representa o cavalheirismo: extremamente solícito com Maria, ele quer se casar com ela e sustentar a casa – mas sugere que, em troca, ela seja uma dona de casa que faça tudo por ele. Maria, moça muito moderninha, fica louca da vida quando ele sugere isso (a cena é tão boa que eu cheguei a postar o vídeo no meu Instagram). Além disso, mais para o final do filme, ele tenta protegê-la durante uma luta na qual ela tinha a total capacidade de participar. Manolo, por outro lado, aproveita a companhia dela para eles lutarem juntos – e está sempre por perto, ajudando, mas sem tirar o poder de escolha dela. Claro que, no fim, ela acaba escolhendo o cara que entende que ela é mais que um rostinho bonito e uma esposa em potencial.

Agora que eu escrevi parece uma coisa meio óbvia, mas talvez importante ressaltar para os moços e moças que acham um absurdo que o cavalheirismo tenha morrido. Que bom que ele morreu! Isso não precisa significar que a gentileza acabou, mas sim que um homem pode ser gentil com uma mulher da mesma forma que é gentil com outro homem – sem atitudes exageradas que dão a entender que ela não dá conta. A gente dá conta sim, moço! Não queremos mais alguém que ande na nossa frente, mas sim ao nosso lado.

Casais que conseguem entender que a relação não é uma hierarquia conseguem diminuir a pressão dos dois lados e são muito mais parceiros do que os casais tradicionais que precisam dos papéis de gênero para agirem. Por um mundo em que o companheirismo seja a regra e o cavalheirismo esteja morto e muito bem enterrado, por favor.

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