O dia que virei gente grande

Deitada ao lado da minha irmã sonâmbula murmurando frases sem sentido, tento pegar no sono para acordar cedo no dia seguinte para trabalhar. Entre preocupações como o saldo na conta, a roupa para o clima curitibano, lembrar de marcar bar com os amigos que não vejo há tempos e o desejo de tentar jogar na loteria (vai que eu só não ganhei porque nunca jogo), percebo que agora eu sou uma pessoa adulta.

Não me tornei adulta quando tive a primeira menstruação, o primeiro dia de faculdade, o primeiro porre, a primeira transa, a primeira conta no banco ou o primeiro carimbo assinado na carteira de trabalho. Sim, cresci um pouco com cada um desses acontecimentos, mas a idade adulta chega pra ficar mesmo quando se dá conta de que é preciso declarar impostos.

A vida adulta é uma floresta desconhecida para mim na qual eu sei que há um leão em algum lugar esperando para me abocanhar. Antes era distante, agora eu já consigo ouvir o animal rugindo no meu ouvido e não faço a menor ideia de como proceder. Em que mês se declara? Precisa de contador? Que documentos que eu preciso guardar? A partir de quanto dinheiro na conta eu preciso me preocupar com isso?

Aliás, se tornar adulta em uma casa sem pai nem mãe não é lá tarefa muito fácil. Ainda mal decorei o que deve ser o preço justo de cada item de limpeza dentro do mercado e agora me encontro dentro desse grupo que precisa explicar pro governo onde e quando gastou a mesada. Pagar conta é razoavelmente fácil, trabalhar se aprende, fazer Trabalho de Conclusão de Curso é possível, mas eu sou de humanas e esse negócio de lidar com dinheiro e documento nunca deu muito certo para mim.

Assustada, peguei meu computador e vim até a cozinha, o único lugar da casa onde não tem gente dormindo e onde não há vaso sanitário, para tomar o meu Dorflex e dizer: VIREI ADULTA, mas não sei muito bem como isso funciona. Tem tutorial? Ainda pode usar tênis com estampa de stormtrooper? Se alguém souber, favor me avisar.

1270eb452fc89d1f5a4e493ba0af2df2.jpg

Anúncios