Não queremos saber no que você está pensando

Talvez seja efeito do famoso “No que você está pensando?” do Facebook, ou ainda tenha começado antes, com o Twitter ou até mesmo com o Orkut ou com os blogs. Não importa exatamente quando isso iniciou, mas fato é que cada vez mais as pessoas sentem a necessidade – e se sentem no direito – de opinar sobre tudo que aparece na frente. Não só sobre um disco, um filme ou um determinado partido político, mas sobre TUDO.

Claro, como qualquer outra pessoa eu sou a favor da liberdade de expressão, então nada mais justo do que dar o direito de qualquer pessoa expor a sua opinião, seja ela qual for. O problema não mora na opinião em si, mas na impressão de que tudo deve ser compartilhado, comentado, sem que a pessoa pare para pensar se aquilo será útil para alguém. Antes de falar algo no trabalho, por exemplo, sempre paramos para pensar, afinal um comentário desnecessário pode ter consequências. Infelizmente, as pessoas não agem assim nas redes sociais – e até mesmo em outras situações do cotidiano.

Cientistas de plantão

Uma das coisas mais chatas das redes sociais é essa mania de ter que expor a sua visão do mundo: todo mundo virou comentarista político, cientista social, filósofo… É saudável o debate de ideias e a reflexão sobre as notícias, mas se você não está acompanhando a política como um todo, não tem um embasamento teórico e não entende o suficiente para não ter uma visão ampla do negócio não se pronuncie, simples assim. O mundo não vai acabar por isso, ninguém vai te julgar por não saber o que pensar da situação política da Venezuela, sério. Muitas vezes é melhor não falar nada do que falar um monte de bobagem. É mesma coisa que uma total leiga no futebol, como eu, querer opinar sobre jogo no Twitter. Não rola, sabe?

Glorinha Kalil from hell

Ok, falar sobre política, religião, música e cinema sem entender porcaria nenhuma é um saco, mas é perdoável. O que mais irrita MESMO nessa mania louca de opinar sobre tudo é quando isso passa a ser pessoal, quando se deixa de comentar um assunto para se comentar uma pessoa. O pior ainda é quando as pessoas estão julgando as outras e achando que estão fazendo um serviço público, dando um toque de amiga. Tenho muita dó dessas blogueiras de moda, a caixa de comentários muitas vezes é lotada de um monte de desocupada que fica criticando a coitada da menina só porque o batom tá borrado, tem um pneuzinho vazando pra fora da calça ou sei lá.

Para você não se tornar essa pessoa inconveniente é simples: só opine sobre a aparência de alguém se ela perguntar. A pessoa pode estar com 200 kgs, uma espinha na ponta do nariz e com as unhas mal feitas, mas ela tem espelho e sabe. Se ela quisesse a sua opinião, ela teria perguntado. Então não, ninguém tem o direito de falar que a calça de fulana é cafona e que ciclana engordou 20 kgs depois que começou a namorar se elas não te perguntarem, explicitamente, o que você acha. Distribuir ódio gratuitamente é deselegante, pega mal e afasta as pessoas.

O Facebook pode estar querendo saber o que você pensa, mas eu não.

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Deixa Deus julgar

Nos últimos dias o site da câmara teve a ~brilhante ideia de colocar no ar uma enquete que pergunta se a pessoa concorda que o núcleo familiar tem de ser formado por um homem e por uma mulher (porque claro, todas as famílias brasileiras realmente são constituídas por papai, mamãe e filhinho, sem quaisquer alterações no modelo cristão). Geralmente eu não tenho vontade de manifestar minha opinião sobre qualquer assunto, mas é realmente chocante saber que o governo acha necessário perguntar uma coisa dessas para a população, que agora se vê no direito de julgar outros arranjos familiares, como mãe e filhos, pai e filhos, vó e netos, dois homens, duas mulheres, etc. Se a bancada evangélica estiver correta, eu nunca tive família, afinal nunca fui criada por um ~núcleo familiar formado por um homem e uma mulher (minha vida toda foi uma mentira e eu não tenho direito a ter família, obrigada).

O maior perigo dessas enquetes é que elas se fazem de processo democrático – quando não o são. O Brasil é – ou deveria ser – um estado laico, algo totalmente ignorado pelas escolas que pregam o cristianismo e pelas repartições públicas que tem como decoração tudo quanto é tipo de cruz e santinho. Impor que uma parcela considerável da sociedade viva sob os dogmas de uma determinada crença, mesmo que a crença em questão tenha muitos adeptos e líderes religiosos no poder, é algo absurdo de se pensar em 2014. A pressão para não dar direitos aos homossexuais é uma guerra que não faz o menor sentido: afinal, se o seu vizinho está dando o cu para um rapaz, no que é que isso te afeta? Com ou sem leis, a sociedade vai continuar tendo gays, a diferença é que as leis que garantem o casamento civil e a formação de um núcleo familiar formado por dois homens ou duas mulheres irá dar a dignidade que essas pessoas merecem.

Mesmo não concordando com certas crenças, eu respeito. Agora querer enfiar isso guela abaixo em uma nação inteira é totalmente non sense, Aliás, falando em non sense, mais de 50% das pessoas responderam “sim” para a enquete. Um estado laico não consiste em dar o que a maioria pede, mas sim garantir que o processo democrático aconteça dentro do país sem a intervenção de crenças religiosas – e isso independe do que a maioria pensa.

Ao invés de dar uma de advogado de Deus, proponho a todos os religiosos que REALMENTE sigam o exemplo de Cristo de amar ao próximo. O que fazem em nome dele hoje em dia vai totalmente contra a filosofia de um cara que andava com prostitutas e leprosos. Acha que homossexualidade é pecado? Pois bem, espere chegar o juízo final. Caberá à Deus julgar, não à igreja e muito menos ao estado.

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