Recém-divorciado

Veja bem, o recém-divorciado não precisa ter sido necessariamente uma pessoa casada. Ele pode ter sido apenas namorado, noivo ou envolvido emocionalmente com alguém durante muito tempo. O importante é saber que recém-divorciado é aquele ser que durante muito tempo viveu a vida a dois. Mesmo em casas diferentes, a pessoa se entregou de corpo e alma, fez promessas, imaginou toda uma vida ao lado daquela pessoa e, em algum ponto, o rumo da história mudou. Aquele corpo pra deitar no ombro já não está mais lá, a mensagem de bom dia nunca chega e a única carta que chega é a de cobrança do cartão de crédito.

Depois de uma relação de anos, de mil juras de amor, de planos e viagens, a vida pode aparecer e mexer na rotina dessas pessoas. Geralmente o que mais apresenta o comportamento de recém-divorciado é aquele que ainda via um futuro brilhante para os dois, que amava a pessoa com a mesma intensidade dos primeiros meses e se deparou com um par cada vez mais distante, indiferente. O calor do abraço já não é mais o mesmo, o olhar desvia para o outro lado e as conversas já não são tão apaixonadas. E, de repente, o outro se vai e deixa um vazio ali do lado.

O recém-divorciado fica meio surtado, sabe. Como assim dedicar tanto tempo pra uma pessoa que vai pegar todas as qualidades e ensinamentos da relação e posições do kama sutra para levar para um outro alguém? E ter desistido do emprego em outra cidade, do intercâmbio, de nada valeu? A pessoa se vê com um tempo livre que antes era preenchido por sexo, cinema, jantar, show. Que graça tem ver um show se você fica de mãos abanando na hora da música romântica? O recém-divorciado recebe tudo isso como um soco, de uma vez só.

O cara, já meio perdido e com amizades distantes por conta do namoro, entra em contato com os antigos amigos (aqueles que não são amigos do casal). Alguns estão namorando (filhos da puta) e outros já estão em outra cidade, tocando outros projetos. Mas claro, sempre sobra um ou dois que permanecem naquela mesma balada todo final de semana. Aí o recém-divorciado pensa “foda-se, vou pegar todas as pessoas que eu sempre quis, transar com alguém diferente, beber sem me importar se alguém vai me ligar” e vai.

Chegando lá, ele percebe que já não tem mais aquele fígado de aço e já perde a linha depois da segunda tequila. Vê alguém interessante e entra em pânico ao perceber que já não sabe como chegar. As coisas mudaram, o recém-divorciado não conhece nenhuma música que está tocando e não tem nenhuma pega fixa na noite. Acanhado, bebe mais uma tequila. Se perde dos amigos, resolve investir em alguém de uma forma ridiculamente patética e acaba a noite gorfando – e mandando sms bêbado pra ex.

No dia seguinte, com vergonha das poucas cenas das quais se lembra, o recém-divorciado tenta pensar que não foi tão ruim assim. “Vai passar, eu já pego o jeito de novo” ele pensa. Na mesma noite ele já está ligando para aqueles mesmos amigos para perguntar qual é a boa, sendo que já é domingo e ninguém em sã consciência está afim de encher a cara mais uma vez. O recém-divorciado então recorre para as redes sociais conferir se aquela outra ex está disponível, se aquela bonitinha do cursinho continua bonitinha. Recorre ao Xvideos, RedTube e começa a puxar assunto com meninas que ele não fala há anos. Carente, tadinho. As meninas percebem a situação na hora, ficam com a mesma pena que elas sentem de um cachorro sarnento na rua.

Até que ele se depara com o perfil da ex. Puta que pariu, que saudade! Por que ela fez isso? O que ele tem de errado? Mágoas e decepções do relacionamento anterior vão se transformando em ódio. Filmes românticos deixam o cara indignado – eles são os culpados de alimentar as pessoas com falsas esperanças de relacionamentos perfeitos. Mulheres são vadias, escrotas e ele nunca nunca nunca mais vai se apaixonar de novo, nunca! Alguns escrevem letras de música pra matar a ex, outros preferem queimar os pertences da ex e cada um procura um jeito diferente de enfrentar a dor de ser deixado para trás.

É engraçado, sabe. Triste, claro, sem dúvida. É impressionante como uma pessoa pode mudar tanto a nossa vida, fazer tanta diferença no cotidiano. O fim de um relacionamento desses é quase como enfrentar uma morte, mas sabendo muito bem que a pessoa falecida pode estar trepando pela cidade inteira enquanto você chora. Mas é engraçado, porque essa fase passa. Mais meses, menos meses, o recém-divorciado vai recuperando a lucidez, o jeito de chegar em alguém e a rotina normal. O fim machuca, maltrata, humilha. A pessoa começa a sair por aí sem rumo, passando vergonha, sem traquejos sociais pra viver como um só. Mas um dia ela foi uma só, soube se virar muito bem. E uma hora ela recupera a dignidade arrancada à força.