A ditadura dos extrovertidos

Não é preciso passar muito tempo vasculhando vagas de emprego para perceber um padrão. Não só lá, mas até em sites de namoro ou outros setores da sociedade o padrão de pessoa ideal é o tal do “líder”. O líder é aquele cara proativo, carismático, extrovertido. Ele está antenado em tudo o que está acontecendo, emite opinião até sobre o que não lhe diz respeito e sabe conversar com todos – desde a copeira até o presidente da República. Não só sabe conversar como conversa bem, conversa muito. Vive rodeado de amigos, colegas de trabalho, trabalha muito todos os dias e ainda tem tempo pra sair beber e pique pra foder uma mulher antes de ir dormir.

Exageros à parte, são essas as pessoas valorizadas pela sociedade. É quase um crime em uma entrevista de emprego assumir a timidez, falar que é introspectivo, prefere a companhia de animais e só fala quando necessário. Não querer fazer amigos a cada canto é um absurdo, desumanidade. Gaguejar, falar pouco e preferir se isolar são características condenáveis hoje em dia. E agora eu te pergunto: por quê?

Imagine agora um mundo onde todas as pessoas fossem líderes. Falam alto, falam muito. Gostam de coordenar, ter contato com todos, fazer parte de todos os grupos na faculdade, no trabalho e na academia. Puxam assunto com o padeiro, no ponto de ônibus, no elevador, conversam sobre o tempo, sobre o fim de semana, sobre as eleições. Que saco! É importante e legal que existam algumas pessoas super sociáveis por aí. Elas são ótimas em alguns cargos, podem ser peça chave num grupo de amigos e iniciar uma conversa que nunca teria começado se só existissem tímidos. Porém, nem todas as pessoas são assim (graças a Deus).

Pessoas tímidas e instrospectivas escolhem suas palavras com cuidado, sabem o valor do silêncio, de uma leitura a sós. Pessoas que não falam o tempo todo conversam consigo mesmas, refletem e conseguem ficar satisfeitas com a própria companhia. Os introspectivos podem não conhecer todo mundo, mas tem a capacidade de dar atenção àquelas pessoas que ele escolheu com cuidado para ter por perto. Valorizam as palavras ditas, entendem que companhia não é necessariamente falar.

Não que nós sejamos melhores do que os mais extrovertidos, mas também temos qualidades que podem contribuir. Não são todas as pessoas que nascem com a habilidade de falar em público, conversar bem. Alguns de nós nasceram sem esse traquejo social e carisma tão valorizado hoje em dia. Não entendo porque tantos cursos, tantos livros e tantas palestras para tentar transformar nossas personalidades. Introspecção não é defeito, é característica. Eu sou quieta e estou muito bem assim, obrigada. Aceitem.

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