Apelo ao (bom) velhinho

Caro Papai Noel, antes de fazer meu pedido eu gostaria de explicar para o senhor porque eu mereço a sua atenção e generosidade. Apesar de preguiçosa e um pouco avoada, consegui atingir as médias necessárias para passar de ano. Trabalhei muito o ano inteiro, e com tanta dedicação que eu recebi uma promoção, veja bem. Não fui perfeita, claro, aprontei um pouco, gastei mais do que deveria, teve aqueles dias que eu bebi demais, extrapolei a hora de voltar pra casa, pensei ou falei mal de alguém. Ah, Papai Noel, por favor, eu sou humana! No geral, acredito que meu balanço tenha sido positivo, não concorda?

Pois bem, vamos ao que interessa: meu presente. O senhor deve saber que meu 2012 foi provavelmente o ano mais pesado da minha vida, sendo que nos últimos quatro anos eu já não tive muita trégua. Tragédia por tragédia, cheguei ao fim de novembro com espinhas no rosto, aparência cansada e largada, dores no corpo inteiro e um coração triste, tão triste. Tenho só vinte anos e sinto que minha alma já apanhou tanto que passou dos quarenta com tanta desilusão. Tantas doenças que já conheço vários hospitais na cidade, tanto problema que já achei fio de cabelo branco na cabeça. Eu não tenho mais forças e é por isso que eu preciso de um favorzinho seu.

Resumindo, posso dizer que o meu pedido é ser uma menina de 20 anos. Quero sair da balada sete horas da manhã tropeçando de bêbada e ter dinheiro pra tomar café da manhã no Babilônia. Quero ser uma menina estúpida e feliz que tem um pai protetor e rico, quero ter uma mãe saudável em casa aproveitando a vida, me levando pra fazer compras no shopping e não numa cama de hospital. Claro que a vida dessas pessoas nunca é perfeita e que sempre há sujeira embaixo do tapete, mas são aqueles escândalos gostosos de falar em rodas de fofoca, nenhuma tragédia grega. Quero ter tempo e dinheiro pra pegar um cinema, tomar um sorvete, ter alguém pra dizer que me ama e que eu não preciso me preocupar mais porque eu não estou mais sozinha. Quero ser tão ridiculamente clichê que eu quero uma porcaria de um iPhone, uma merda de uma roupa de marca que não vale o que custa e uma casa na praia. Falando em praia, Papai Noel, faz bem uns quatro anos que eu não vou pra uma e quando eu resolvo ser uma das farofeiras que desce pra Santa Catarina vão lá e cortam minha onda. Vou esperar o próximo ano em casa, de novo.

Não é justo eu perder a esperança tão cedo. Não é justo ver a pessoa que eu mais amo sofrendo mais que todos os filhos da puta que eu já conheci juntos. Ela foi uma boa menina, muito melhor que eu, todos os anos e tudo que ela ganhou em troca foram três cânceres e um AVC.  Veja bem, não quero que a história se repita! Eu quero trabalhar por prazer, não por necessidade. Quero ser abraçada, quero me sentir amada, quero acordar sem a horrível sensação de estar vivendo um drama do Almodóvar. Eu quero viver na porra do Meninas Malvadas, quero ser uma filha da puta de uma patricinha de Beverly Hills, o imbecil do Peter Pan que nunca cresce e é poupado de assistir toda essa desgraça acontecer. Ou posso simplificar meu pedido, senhor “bom” velhinho, com uma letra de música, se ficar mais fácil para você me atender. Paz. Eu quero paz.