Falta ar

Chega uma hora que não dá mais, sabe. Não há lágrimas, cigarros, bebidas e gordura trans que consigam amenizar a porcaria da dor. Há algum tempo tenho tentado levar a vida de forma mais leve, não me irritar por bobagens, rir mais. Por um tempo foi bom, deixou minha alma mais calma, minha vida mais tranquila. Acontece que ser uma pessoa boa, tentar fazer tudo certo não é garantia de que tudo vá dar certo, é apenas uma tentativa que geralmente fracassa. E quando a gente acha que acabou, que dá pra respirar em paz, que a maré de azar passou… Chega mais uma tonelada de problemas, decepções e incertezas. Queria poder fugir, largar tudo e todos, ignorar a pilha de problemas que aumenta cada dia mais. Não tem jeito. 

Espelho

“Como você se imagina daqui cinco anos?” perguntou a moça de prancheta no colo sentada na poltrona à minha frente. Em que sentido, Eloá? Por se tratar de uma entrevista de emprego, imagino que esteja se referindo à minha vida profissional. Pois bem, faço jornalismo. Não gosto de telejornalismo, TP me dá enjôo, as câmeras me confundem, minhas palavras soam artificiais debaixo das luzes brancas. Rádio é um pouco mais simpático: gosto de música, mas radiojornalismo? Não sei, não. É outro veículo que me deixa com as mãos suadas, não gosto de ouvir minha voz. Gosto de escrever, mas essa forçação de barra de alguns professores nos colocarem para trabalhar em dupla é difícil, principalmente com pessoas autoritárias.

Me imagino com dinheiro, Eloá. Não necessariamente rica, mas vivendo confortavelmente. Sozinha, com um amigo, casada, quem sabe? Não precisa ter quase mil metros quadrados, mas precisa ser aconchegante. Entrar sol pela janela, ficar quentinho no inverno, refrescante no verão. Seria bom ter uma varanda, um cachorro, um sofá grande pra ver filme. Uma estante é essencial: meus livros já não cabem mais em lugar nenhum. Daqui cinco anos quero pagar minhas contas, trabalhar, ser uma daquelas mulheres de vinte e poucos anos que se vestem elegantemente. Sair para um happy hour com os meus amigos da faculdade, ter um jantar romântico (espero que até lá pelo menos eu tenha um namorado), ir a shows com o meu melhor amigo. Espero que até lá eu seja mais magra e mais bonita, também.

Ah é, profissionalmente. Tenho essa mania de me perder nas conversas… Eu quero escrever. Romances, contos, crônicas. Notícias, peças publicitárias, informativos. Quero conhecer pessoas e histórias, quero mostrar pro mundo o diferente, o inesperado, o emocionante e até mesmo o absurdo, afinal até o absurdo é melhor que a ignorância. Quero escrever coisas inventadas também, transportar o leitor para outra realidade, fazer ele acreditar em algo maior. Não sei se você coloca muita fé em mim, afinal eu sei que estou longe de ser um grande talento. Mas olhando pra trás… Há cinco anos eu tinha 15 e sonhava com uma faculdade de jornalismo, com amigos confiáveis, uma relação boa com a minha família. Não posso reclamar, estou mais ou menos onde eu queria estar. Não sei se você coloca fé, mas eu coloco. De uma forma torta e estranha, eu sei que eu vou ser quem eu quero ser.

Fantasy

Quando eu era criança, minha família achava que eu era louca. Sempre com uma boneca na mão, eu corria pela casa fazendo caras e bocas, movimentando a boneca, como se eu fosse ela, como se ela fosse eu. Desde pequena fui assim, sabe. Criei outras realidades na minha cabeça, com outras pessoas, outros cenários, outros desfechos. Já corri na sala de cinema me sentindo a própria Matilda, já criei clipes para várias músicas na qual eu era a protagonista, já vi clipes e desejei ser a Zooey Deschanel. Já sonhei em ser diretora de clipes e poder criar esses universos de acordo com o que eu sinto ouvindo aquela música.

Talvez isso seja um problema. Eu sei encarar a realidade, mas vivo me refugiando nas histórias da minha cabeça. Pra conseguir aguentar aquele não, pra conseguir sorrir com alguma possibilidade remota, pra sonhar com um futuro bom. Eu gosto da minha vida, do jeito que ela é, como algumas coisas aconteceram, mas tem vezes que o melhor roteiro é aquele que só é real dentro de mim. Parece louco isso? Talvez, mas me faz bem criar coisas bonitas, mesmo que elas nunca saiam de mim e entrem no mundo concreto.

Ser sonhadora me faz sorrir mesmo quando as coisas não vão tão bem. Me faz esperar por dias melhores, alimenta minha criatividade e permita que eu viva sentimentos de coisas que talvez nunca aconteçam. Não sei até que ponto é bom manter os pés assim, suspensos no ar. Melhor que isso, só mesmo quando essas cenas resolvem sair da minha cabeça. Ouvir aquilo de verdade, sentir a pele daquela pessoa, conseguir aquela tão esperada ligação. É, vezes demais eu desejei ser outra pessoa, viver uma vida diferente, ter outras pessoas perto de mim. Mas, por mais imperfeita que a realidade seja, ela é mais intensa. As coisas boas que acontecem em carne e osso conseguem superar qualquer expectativa.