Eu quero amor

Não acho saudável pessoas que não conseguem viver sozinhas, emendam um relacionamento em outro e são incapazes de ir ao cinema ou tomar um café sem companhia. É uma virtude se amar o bastante para ter prazer na própria companhia, se perder em devaneios solitários e ser feliz no silêncio. Posso dizer em que muitos desses momentos eu tenho as minhas melhores idéias e rio sozinha das minhas próprias conversas. Me divirto com a minha presença e considero essencial a gente saber ser um inteiro, ser completo e não precisar de alguma tampa ou metade.

Acontece que nada em exagero é bom e às vezes faz bem se encontrar em outro alguém, encontrar uma pessoa que te faça se sentir melhor, que apareça na sua vida para despertar algo especial. Eu não tenho um relacionamento há três anos e meio e vez ou outra me pego com saudades de algumas coisas que só quem já viveu sabe a delícia que é. Pode ser ótimo trocar uma noite de sábado regada à bebida e música alta por uma manhã silenciosa de domingo acordando acompanhada. Não acompanhada de um estranho, uma ressaca e uma culpa que banho algum vai lavar, mas sim acompanhada daquele corpo que você conhece tão bem, mas ainda encontra uma pinta que você não tinha reparado antes. Olhar para o lado e sentir aquele cheirinho tão familiar, aquele rosto que mesmo babando feito um bulldog consegue ser lindo. Passar minutos apenas observando a pessoa respirar com os olhos fechados e sorrir quando ela acorda com o cabelo bagunçado, remelos e adorável como nunca. Sentir a segurança de ser abraçada e saber que não vai ser o último, saber que a pessoa sente o mesmo por você e que ela não vai a lugar algum, pelo menos não tão cedo.

O especial e o ruim disso tudo é que não acontece o tempo todo, com qualquer pessoa. Além de tempo, é necessário um sentimento que surge de repente e não depende de beleza, simpatia, conta bancária. Vai muito além de qualquer coisa palpável e racional, é uma química, uma combinação que torna a pessoa perfeita aos seus olhos. E, por algum motivo, as poucas vezes que eu consigo sentir essa coisa tão rara é não-correspondido, surge e desaparece num instante.

E, enquanto a sorte não sorri pra mim, eu me escondo e me engano que não preciso ser amada vez ou outra.

Você

Às vezes dá saudade, uma vontade que não sei bem de onde vem. De repente me pego pensando no seu sorriso, no som da sua risada, no seu sotaque carregado que em qualquer pessoa ficaria ridículo, mas em você fica bonito. Nosso tempo foi curto, mas de uma intensidade que poderia valer por anos.

Eu me irritava, mas agora sinto falta de quando você chacoalhava meus braços e fazia eu parecer uma boba. Tento pensar que na minha vida vão ter momentos mais bonitos do que aquele em que a gente se beijou na chuva enquanto My Valentine tocava ao vivo, mas parece difícil que em uma vida tenha mais de um momento tão irreal e perfeito como esse.

Seria piegas da minha parte falar que um sentimento tão grande num espaço tão curto de tempo só pode ser destino, mas seria mentira falar que o que eu sinto é algo que acontece todo dia. Desde o primeiro abraço era como se nossos corpos se encaixassem de forma perfeita e devessem ficar juntos. É quase um desafio estar perto de você e não querer ficar junto.

E quando eu paro pra pensar em como nos conhecemos… Nossa história se torna ainda mais absurda. São tantas noites saindo com a esperança de conhecer alguém interessante, tanta expectativa de conhecer alguém de alguma forma mágica e, de um jeito até ridículo, te conheci. De qualquer forma, ter encontrado você me trouxe uma felicidade que eu já tinha esquecido que existia. Mas, na mesma intensidade que é bom me aproximar de você, é a dor ao ter que me afastar. Nosso tempo foi tão curto, passou tão rápido que a nossa despedida me causou uma dor enorme. Não só por ficar longe de você, mas também pela insegurança de não saber se foi importante para você como foi para mim, pelo medo de não saber quando iria te ver de novo. Para minha felicidade, nosso próximo encontro está próximo. Tento não pensar que vai ser curto, que talvez não signifique pra você o mesmo que significa pra mim. Deixa ser como será.

The C Word

Algumas pessoas são incapazes de pronunciar em voz alta. Sentem calafrios ao pensar na palavra, tão pesada, com tantas implicações. Muitas a relacionam diretamente com a palavra “morte”. Já outros conseguem conversar sobre ele e todos os seus “acessórios” sem maiores problemas. Quimio, radio, raspar a cabeça, cirurgia, remédios. Não importa de que forma você escolhe lidar com isso, ele existe e não escolhe hora, lugar, classe social ou idade para aparecer.

Quando alguém da minha família foi diagnosticada com a doença, foi difícil. Ao mesmo tempo em que eu procurei ficar calma e me informar antes de tirar conclusões precipitadas, algumas pessoas ao meu redor entraram em desespero e fizeram eu me sentir apreensiva. Será que eu deveria me preocupar mais? É tão ruim assim? É irreversível? Milhões de coisas passam na cabeça e tive que aprender a lidar com uma realidade nova, na qual o bem-estar das pessoas que eu amo não depende só de mim.

Apesar de todas as dificuldades, acredito que uma das mais difíceis é lidar com outra pessoa. Eu sou meio sem jeito com as palavras, nunca sei o que dizer ou como proceder em casos mais delicados. E com todas essas dúvidas, eu sempre tentei agir da forma mais sensível e confiante possível, de forma a tentar amenizar o clima. Mas na convivência em hospitais e pós operatórios consegui ouvir coisas das visitas que, sinceramente, me dá vontade de socar quem falou.

Algumas pessoas acham que porque estão no ambiente hospitalar devem falar exclusivamente de doenças. Contam casos de parentes, amigos, de enfermeiras despreparadas. Ou então contam detalhes de procedimentos cirúrgicos, me fazendo desejar ser surda. Também tem aqueles que, na intenção de mostrar que poderia ser pior, contam casos terminais e fazem questão de nos lembrar constantemente que essa doença mata. Não necessariamente, mas mata. A presença dessas pessoas fazem com que a pergunta “e se…” sempre nos leve para a pior possibilidade.

Pra quem não sabe como agir nessas situações: fique quieto. Às vezes a simples presença é o necessário pra mostrar que se importa, muitas vezes só oferecer ajuda já é uma forma de mostrar que você está lá, que você se importa. Se você não sabe o que falar, simplesmente não fale. E se você ou alguém próximo estiver passando por isso, força. Procure não prestar atenção no que algumas pessoas extremamente insensíveis falam, não vale a pena. E caso o recado não esteja claro: