Porque fazer (e consumir) arte

A pior solidão não aparece quando estou só. Estar só, aliás, pode ser muito agradável. O pior tipo de solidão aparece na multidão. Na praça de alimentação de um shopping, na sala de aula, na rua XV de novembro, no parque, na mesa de bar, na pista de dança. Posso estar sozinha ou com algumas pessoas, mas de alguma forma eu não pertenço. Não entendo a o assunto da conversa, não tenho interesse, minha mente divaga pra algum lugar além das risadas, goles e baforadas de cigarro. São breves momentos em que eu odeio todos (inclusive algumas pessoas que eu amo. Principalmente elas.), ninguém me entende e, de alguma forma, eu me torno extremamente inadequada. Meus pés doem, bocejo de tédio e o meu maior desejo é me isolar, física e mentalmente.

É aí que eles entram: todos aqueles livros na estante, as músicas no iPod, os seriados em avi no pen drive, os filmes na tela do cinema. De alguma forma, preenchem minha alma e me dão o conforto de uma casa, maior que qualquer prazer material. Algumas pessoas que viveram anos comigo não conseguem me entender, mas o Morrisey abre furiosamente meu peito com as suas letras: a identificação é imediata. E como explicar o amor por um personagem inventado em 1945? Afinal, Holden Caufield consegue expressar o que eu sinto melhor do que eu mesma. Ele tem a coragem de falar coisas que eu não consigo assumir que estão dentro de mim. Já a Bridget Jones parece ser a única que já passou tanta vergonha quanto eu. E se até ela encontrou alguém que a amasse apesar de tudo…

Talvez seja essa a mágica que prende tantos expectadores em frente á televisão durante o último capítulo da novela das nove. Talvez isso explique o sucesso das bibliotecas móveis para desabrigados. A realidade é cruel, intolerante, dura. As pessoas são más e o que vai nem sempre volta, o esforço nem sempre vale a pena no final das contas. Mas ali, escondido em algum conto ou no riff de guitarra de alguma música existe algo. Maior que eu, maior que você, que atinge como um raio cada um de nós de forma diferente. É quase como receber o abraço de alguém amado. E no meio de toda essa bagunça, finalmente pertencemos.

O Big Brother e a incoerência das mulheres machistas

Apesar de ser um assunto já gasto nos últimos dias, preciso escrever minha consideração a respeito do que aconteceu nessa edição do Big Brother. Não vou entrar no mérito de ser um bom programa ou não, de ter sido uma jogada de marketing planejada ou não, de a Monique estar acordada ou não. Vou trabalhar aqui com os comentários feitos a partir da premissa de que houve abuso sexual.

Não consigo expressar o tamanho da minha indignação ao ler vários comentários de pessoas letradas, com acesso à educação, internet e diversas fontes de informação falando coisas como “mas ela também não foi santa”, “uma mulher tem que se preservar”, “bebeu? Agora agüenta!”, “você viu o tamanho da saia dela?” e outros absurdos. Conquistamos o direito ao voto, ao trabalho e tantas outras coisas para deixarmos de ser vistas como um objeto puramente sexual para, em pleno ano de 2012, sermos culpadas por um descontrole de um homem com distúrbio psiquiátrico? Sim, porque ao contrário do que alguns afirmam não é da natureza do homem. Hormônio tem influência? Sim, mas quem manda na porra toda é o cérebro, ou então todo mês a mulher faria uma chacina em época de TPM. Impulso todo mundo tem, mas sem o autocontrole nos tornamos animais.

O mais surpreendente é que essas colocações machistas vêm em sua maioria de bocas femininas. Elas acham que o estuprador está certo, que a mulher abdica de todos os seus direitos ao ingerir álcool ou mostrar um pedaço do corpo. Se fosse assim, não existiria abuso sexual de crianças, de mulheres completamente vestidas e sóbrias. A mulher não perde o respeito quando mostra alguma parte do corpo ou quando bebe. A mulher que perde o respeito é essa que aceita ser submissa aos homens, aceita seguir regras de uma sociedade que sempre coloca a culpa no sexo feminino.

Ela pode ter enchido a cara, chamado o homem para a cama, passado a mão nele. Mas se ela realmente estava desacordada, nada justifica o abuso. É hora de algumas pessoas perceberem que nós somos seres racionais. Mulheres não são pedaços de carne que servem unicamente para agradar o sexo oposto, homens não são animais descontrolados que agem puramente por instinto.

 

“The thing is, it’s patriarchy that says men are stupid and monolithic and unchanging and incapable. It’s patriarchy that says men have animalistic instincts and just can’t stop themselves from harassing and assaulting. It’s patriarchy that says men can only be attracted by certain qualities, can only have particular kinds of responses, can only experience the world in narrow ways. Feminism holds that men are capable of more – are more than that. Feminism says that men are better than that, can change, are capable of learning, and have the capacity to be decent and wonderful people.”

Zero At The Bone